quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Caruaru está pobre de marré deci?

"Meninos Soltando Pipas"
de Portinari (1943)
Fonte: Projeto Portinari
Caruaru é uma cidade que está pobre, pobre, pobre de marré deci. Não me refiro à situação econômica da cidade (que por sinal vai bem, obrigado), mas a alguns hábitos ruins que parte da população transmite para seus filhos, com valores diferentes daqueles de antigamente. Hoje observamos valores pobres, que não ajudam a vida em sociedade, e não contribuem para melhorar a qualidade de vida da população: "eu sou mais importante que o outro"; "o dinheiro é mais importante que a família"; "os fins justificam quaisquer meios utilizados".

Nossas crianças não brincam mais, mas "aprontam" na rua, na escola, em casa, e os pais atarefados não observam o mal que fazem a seus filhos quando não ensinam o que era considerado certo e errado antigamente.

Pião, bola de gude, ciranda e amarelinha... brincadeiras do século passado que foram substituídas pelo video game, TV a cabo e passear no shopping. Antigamente, muitas brincadeiras eram realizadas juntamente com canções, como é o caso da moça rica e pobre. Lembram? "Eu sou pobre, pobre, pobre,/De marré, marré, marré./ Eu sou pobre, pobre, pobre,/De marré deci.".




Hoje as crianças cantam "Ai se eu te pego", fazendo gestos obscenos, e os pais ainda acham bonitinho. Não sou exemplo da moral de dos bons costumes, mas há algo muito estranho no ar. Mês passado conheci uma criança de 9 anos com um vocabulário de palavrões superior ao meu. "Os tempos mudaram", dizem alguns, "você tem de adaptar-se ao século XXI". Será? Os conceitos de certo e errado realmente mudaram?

Há 30 anos, respeitava-se os professores. Imagine isso! Até os pais dos alunos respeitavam os professores! Hoje em dia, o professor que não fizer gracinhas em sala de aula, como faz um palhaço no picadeiro do circo, é considerado ultrapassado pelos pais, alunos e diretores de escola. Lembro de uma época em que a palavra do professor era uma "verdade" e os alunos prestavam atenção. Hoje, o professor "ouve" mais do que fala e é chamado de idiota na frente da turma pelos alunos e seus pais.

As consequências disso podem ser vistas nas ruas de Caruaru todos os dias: trânsito caótico, recheado de motoristas infratores; sons potentes de carros destruindo a paz da vizinhança dos bairros com músicas de péssima qualidade; violência espalhada por todos os cantos da cidade, com homicídios e assaltos; uma população que não consegue lê uma única revista, porque simplesmente não entende o que está escrito (apesar de ter sido "alfabetizado"); pessoas que não respeitam filas, sempre tentando passar na frente dos outros; uma população que vive em bairros sem saneamento básico tranquilamente, mas que enlouquece se alguém disser que a festa de São João não deveria acontecer.

"Há algo de podre no reino da Dinamarca", constatou o poeta inglês. Há algo de podre na sociedade em que vivemos. Mas é como dizem: se ninguém mais sente o mau cheiro, então fedido deve ser eu.

Abaixo, a letra de uma canção infantil muito conhecida antigamente, quando as meninas brincavam, ao invés de correrem atrás de "astros" da música teen descerebrada de hoje em dia.

Eu Sou Pobre, Pobre
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, marré, marré.
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré deci.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré, marré, marré.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré deci.
Eu queria uma de vossas filhas,
De marré, marré, marré.
Eu queria uma de vossas filhas,
De marré deci.
Escolhei a qual quiser,
De marré, marré, marré.
Escolhei a qual quiser,
De marré deci.
Eu queria (nome da pessoa),
De marré, marré, marré,
Eu queria (nome da pessoa),
De marré deci.
Que ofício dais a ela ?
De marré, marré, marré.
Que ofício dais a ela ?
De marré deci.
Dou o ofício de (nome do ofício)
De marré, marré, marré.
Dou o ofício de (nome do ofício),
De marré deci.
Este ofício me agrada (ou não)
De marré, marré, marré.
Este ofício me agrada (ou não)
De marré deci.
Lá se foi a (nome da pessoa),
De marré, marré, marré.
Lá se foi a (nome da pessoa),
De marré deci.
Pra terminar :
Eu de pobre fiquei rica.
De marré, marré, marré.
Eu de rica fiquei pobre,
De marré deci.


Você pode ler um pouco sobre a origem, modo de brincar e interpretação desta canção infantil no site da Revista de História, clicando aqui. A letra aqui apresentada foi extraída do site Letras, do Portal Terra. Clique aqui para acessá-lo.

Um comentário:

  1. Fico feliz em ver que não sou o único que pensa assim. Esses pais não tem ideia do mal que fazem aos seus filhos colocando-os para ouvir esse tipo de música. O cérebro de criança é como esponja. Absorve completamente tudo. E isso certamente não produzirá adultos saudáveis. É uma pena ver uma geração ser destruída desde o começo. Prefiro acreditar que ainda há aqueles que se preocupam com a formação humana e intelectual de seus filhos. Ótima postagem, escrevedor!

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